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A Vereda da Cutia

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César acordou em pânico ao perceber que sentia os pés molhados e não sabia o por quê. Parecia também que estava em pé, o que deixou ainda mais atordoado. Poderia até dormir sentado. Mas em pé? Será que foi aquele drink “Sagarana”? Mas ele sequer havia bebido na noite anterior. - Nossa, que lindo! - Como é possível? - Como a natureza pode fazer algo assim? - Sei lá, tem coisas que talvez nem mesmo Deus possa explicar! Celso ainda não conseguia olhar ao redor, mas começou a escutar e percebeu que estavam falando dele. Mas nem mesmo a mãe dele, nem nenhuma namorada jamais o elogiaram tanto assim. Ele começou a ficar com ainda mais medo. Começou a enxergar o que estava em volta bem aos poucos. Viu que estava num lugar alto, em meio a uma natureza exuberante, em cima de um belo rio e um grupo de caminhantes se afastar, os mesmos que haviam acabado de o elogiar. - imaginou que pudesse estar num conto kafkiano, mas ao menos não deveria ter virado um repugnante inseto voador ou...

Desconhecer

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Naquele dia, há exatos 25 anos, eu não iria passar pela Brasília Amarela. Ela era mesma, sim. A Brasília dos Mamonas, ou ao menos era o que o cartaz dizia. Ficava lá à mostra para um leilão que estava para acontecer. Na últimas semanas passar por ela tinha se transformado na minha rotina pois a cada dia eu subia e descia a ladeira para visitar meu pai. Mas naquele dia ele havia morrido, minha mãe e minhas avós chegaram pouco após ás seis da manhã, acordaram a mim e a Edite e nos deram a notícia. E para homenageá-lo irei postar um conto! Desconhecer Darlan era um carioca da “clara e da gema” como ele mesmo gostava de se definir. Amava a cidade, suas belezas naturais e sua combinação ímpar de serras, prédios e praias. Quando mais novo fotografava de cada canto da cidade e, como trabalhava como fotógrafo, ainda tinha o prazer de revelar suas próprias fotos. Mas Darlan também era daqueles que queriam aproveitar a vida ao máximo. Bebia e, principalmente fumava muito e ainda rela...

Trocadalho

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Trocadalhos Kléber era fã de trocadilhos desde criança. Seu pai aproveitava seu gosto por F1 para mudar o nome dos pilotos e divertir o jovem: Ayrton Safena; Burrinho Rabichello, etc. O tempo passou e amigos sempre renovavam a lista de trocadilhos de Kléber, alguns obscenos: queijo coalho, virava “queijo c*ralho”, picadinho, “p*rocadinho”. Outros mantinham a inocência da tenra idade: congelado, por exemplo, virava, simplesmente, “cão gelado”. - Algum dia você vai falar isso numa hora inapropriada, alguém lhe avisava, vez ou outra. Mas Kléber, atento, sempre soube quando poderia, ou não, falar seus trocadilhos. Certo ano, durante o natal Kléber dirigia seu carro em direção a uma festa. Preparou um prato de peixe para dividir com o grupo. E, como não bebia uma gota de álcool, Kléber comprou algumas latinhas de sua bebida gasosa preferida, abriu uma, acomodou as outras, e seguiu em frente.  Até que em certo momento foi fechado por um Marea velho, pintura desbotada, luz traseira enfraq...

O Maníaco de Niterói

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Esse conto é apenas uma brincadeira com alguns amigos meus de Niterói. Além disso quero deixar bem claro que é só um conto e que sou totalmente contrário a qualquer violência: O MANÍACO DE NITERÓI Em meio a correria de mais um dia de semana no centro da cidade do Rio de Janeiro ele entrou numa padaria no famoso Edifício Central o fez um singelo pedido: - Eu gostaria de um italiano, por favor? - O senhor não é carioca, não, né? É de Niterói? Perguntou o atendente? - Sou, como sabe, é por que pedi um italiano e não um joelho? - Não é porque falou “por favor”. Durante um dia tão problemático e cansativo, o niteroiense riu. Talvez o único momento que tenha feito isso naquele dia. Se, entre tantas brincadeiras e rivalidades, os cariocas dizem que o único ponto positivo de Niterói é a paisagem da Baía de Guanabara, por outro lado os niteroienses retrucam, considerando a si mesmos mais educados e civilizados. Poucas horas depois ele se encontrava parado no meio Ponte Rio-Niterói. ...

A Pandemia e Às Travessias

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No início de 2018 soube que em julho haveria mais uma edição do Caminho do Sertão. Uma Travessia a pé de cerca de 200km entre o distrito de Sagarana, em Arinos-MG e o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em Chapada Gaúcha-MG. Dois lugares que levam o nome dos dois mais famosos livros de Guimarães Rosa. Não era, nem um pouco, um profundo conhecedor das obras, mas lembrava de me espantar com a precisão e a admiração que ele escrevia sobre o Sertão. E há anos já sabia de tal região e tinha muita vontade de conhecer. Eu só não tinha a menor ideia de que existia a Travessia. Todo ano a seleção é feita a partir de cartas enviadas pelos pretendentes a caminhantes. Inscrevi-me para a edição de 2018. Não fui selecionado. Mas teimoso que sou, fui ao encontro dos povos, em Chapada Gaúcha e me deixaram fazer o último dia de caminhada. Encantei-me. Fazê-la passou a ser um dos meus maiores desejos. Tentei de novo de 2019. Nada. Tentaria novamente em 2020... Sou geógrafo e há muito temp...

Memórias de Uma Noite em Quarentena

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Essa eu escrevi num dos dias de panelaço, em quarentena, em casa, no auge de um momento em que vivíamos num país no fundo do poço e convivendo ao mesmo tempo com a pandemia: Primeiro levou a memória dos torturados Mas não me importei com isso Eu não fui torturado E das estupradas Como um rato, não liguei Elas mereceram, foram avisadas E dos assassinados Fui brilhante, ignorei Isso é coisa do passado Depois humilhou os negros Mas não me importei Seis arrobas não pesei Destratou os gays Deixa pra lá Eu me lixei Menosprezou as mulheres Não liguei pra palhaçada Eu não sou uma fraquejada Não foi por falta de aviso Brecht, há muito tempo narrou Mas não me importei com isso Já acabou Agora está levando minhas finanças Minha saúde. Até minha liberdade Só agora bato panela Preso na janela Mas agora é tarde Como não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo

Certa Beleza no Cinza do Tempo

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Escrevi isso há muitos e muito anos e quando reencontrei e reli até que achei legalzinho: Dias escuros Tempos nublados O sol se esconde Sem hora nem data para voltar Tempestade valente Manhosa, resistente Escurece o mar e o ar Parecem meses anos séculos Sem um brilho no olhar Ao refletir um raio solar É fácil ceder Sofrer pra valer A alegria partir Sem viver, desistir Sem sentir o calor Nem o sol se pôr Hora de sentir a sutileza E estar atento Há uma certa beleza No cinza do tempo Aprecie até as grossas nuvens Até cada uma passar Levará do ar as impurezas Mais forte o sol brilhará Pois só quem já esteve na lama Sabe como é bom se limpar