Memórias de Uma Noite em Quarentena

Essa eu escrevi num dos dias de panelaço, em quarentena, em casa, no auge de um momento em que vivíamos num país no fundo do poço e convivendo ao mesmo tempo com a pandemia:

Primeiro levou a memória dos torturados
Mas não me importei com isso
Eu não fui torturado

E das estupradas
Como um rato, não liguei
Elas mereceram, foram avisadas

E dos assassinados
Fui brilhante, ignorei
Isso é coisa do passado

Depois humilhou os negros
Mas não me importei
Seis arrobas não pesei

Destratou os gays
Deixa pra lá
Eu me lixei

Menosprezou as mulheres
Não liguei pra palhaçada
Eu não sou uma fraquejada

Não foi por falta de aviso
Brecht, há muito tempo narrou
Mas não me importei com isso
Já acabou

Agora está levando minhas finanças
Minha saúde. Até minha liberdade
Só agora bato panela
Preso na janela
Mas agora é tarde
Como não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo

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