A Vereda da Cutia

César acordou em pânico ao perceber que sentia os pés molhados e não sabia o por quê. Parecia também que estava em pé, o que deixou ainda mais atordoado. Poderia até dormir sentado. Mas em pé? Será que foi aquele drink “Sagarana”? Mas ele sequer havia bebido na noite anterior.

- Nossa, que lindo!

- Como é possível?

- Como a natureza pode fazer algo assim?

- Sei lá, tem coisas que talvez nem mesmo Deus possa explicar!

Celso ainda não conseguia olhar ao redor, mas começou a escutar e percebeu que estavam falando dele. Mas nem mesmo a mãe dele, nem nenhuma namorada jamais o elogiaram tanto assim. Ele começou a ficar com ainda mais medo.

Começou a enxergar o que estava em volta bem aos poucos. Viu que estava num lugar alto, em meio a uma natureza exuberante, em cima de um belo rio e um grupo de caminhantes se afastar, os mesmos que haviam acabado de o elogiar.

- imaginou que pudesse estar num conto kafkiano, mas ao menos não deveria ter virado um repugnante inseto voador ou algo do tipo, pois fora bastante elogiado pelos que passaram.

Mas o que poderia estar a acontecer?

E começou a lembrar do dia anterior. Já estava se aprontando para o casamento de Hannah e Adauto quando foi convidado de última hora para ser padrinho. Aceitou de forma um tanto quão exitosa, mesmo adorando o convite, pois temia ficar um tanto quanto nervoso e ansioso ao chegar a hora da cerimônia. Um nervosismo que só se encerrou ao avistar o chão do caminho que levara os noivos ao altar e que o levaria para uma das cadeiras dispostas ao lado decorado com um mapa de Grande Sertão: Veredas e lembrar que o que a vida quer da gente é coragem.

Já em certo momento da cerimônia, o pai do noivo falou era tarefa deles dar raízes aos filhos, para que eles lembrassem de onde vieram, e asas para que eles pudessem voar. Celso lembrou, então do próprio pai, morto já a muito tempo, quando ele ainda era jovem. Então Celso olhou para o céu e pensou que se seu pai tivesse vivido um pouco mais poderia ter lhe dado mais asas, mais raízes e lhe aconselhado mais, de forma que, talvez, ele hoje não fosse tão ansioso, angustiado e, por vezes, errático como era hoje. Ele então, olhou aos céus e pediu:

- Pai, se você pode me escutar aí em cima, por favor me dê tais raízes e asas que elas me fazem muita falta aqui embaixo! Depois disso Celso aproveitou a festa, voltou ao hotel em que se hospedara e foi dormir.

Celso finalmente conseguiu enxergar a si mesmo e só então percebeu que, lá de cima, seu pai o ouviu. Mas ele só esquecera que seu pai era um pândego de marca maior. Daqueles que na adolescência foi capaz de jogar um sapo, de nome Jobel, por uma cordinha, do alto de seu prédio até janela da festa de aniversário de uma amiga apenas porquê ele não fora convidado. Celso percebeu então que seu pai resolveu levar demais ao pé da letra o pedido feito e o transformou no mais lindo buriti da Vereda da Cutia, com lindas asas brancas com um desenho de formosas caliandras no centro delas e ao mesmo tempo frondosas raízes fincadas no leito do rio com tanta força que nem mesmo os mais assustadores incêndios ou enchentes seriam capaz de arrancá-las.

E assim não restou alternativas a Celso Buriti senão virar suas asas para alto e falar:

- Porra, pai. Precisava ser tão literal?

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