O Tapiti da Deusa Lua
Antes de colocar o conto acho de bim tom avisar que hoje eu sei que não se deve falar "Velho Índio". Nas pensei em reescrecer de outtas formas e não consegui arrumar nenhuma que conseguiu substituir:
O Tapiti da Deusa Lua
- Não vejo na Lua o São Jorge e o Dragão como a maioria vê. Desde criança quando olho para ela vejo um coelho. Disse uma das garotas na trilha a Kléber.
Kléber, então, começou a pensar no que disse a moça. A lua nem havia aparecido no céu, ainda estavam no meio da tarde e em noite de lua cheia, ela só aparece bem na hora do pôr do sol. Saíram do Sertão da Jararaca, lugarejo numa remota região do Brasil, e percorriam um trilha em direção a uma montanha conhecida como Rocha Rachada. Ele continuava a pensar no assunto enquanto caminhava, quando, para sua surpresa, escutou: “A moça está certa. É o nosso coelho selvagem, um tapiti”. A voz veio de um velho índio que havia encontrado no meio do caminho. Ou melhor, ele encontrou Kléber.
E o velho índio contou que há muito tempo, naquela região, muito antes dos europeus invadirem a América, sua tribo acreditava que a Lua era uma Deusa e ela abrigava um Tapiti, um pouco conhecido coelho nativo, o “bichinho de estimação” da Deusa Lua. Acreditavam também que a grande rocha que os avizinhava era outro Deus, o Deus Rocha.
- Mas era apenas um bloco único de rocha, feio e sem graça, e não essa linda rocha rachada que você vê agora, disse o índio.
Kléber estava cansado da caminhada, e a conversa com o índio o fez ganhar um fôlego, e só então ele reparou na belíssima rocha repartida ao meio.
- Até que, durante um eclipse da lua, o tapiti se aproveitou da escuridão, fugiu da Deusa Lua e se abrigou na vegetação do Cerrado no entorno do Deus Rocha. Cruzou com a única tapiti fêmea que existia e só a partir de então eles passaram e se espalhar pela região.
O que veio a seguir, segundo o velho índio, foi uma insólita perseguição, em que a Deusa Lua, ao fim do eclipse, desceu à Terra atrás de seu animal de estimação, com direito a diversos dribles dados pelo tapiti e escorregões da Deusa Lua. Por fim a Lua venceu o Tapiti pelo cansaço e consegui recuperá-lo. Entretanto a perseguição foi tão engraçada que mesmo o Deus Rocha, conhecido por sua sisudez e falta de humor, riu tanto que rachou de rir.
- Nesse dia surgiu a expressão rachar de rir que vocês tanto falam, disse o índio, as gargalhadas.
Então Kléber avistou novamente a Rocha Rachada e podia jurar que a via rindo.
Quando virou para o índio de novo, para sua surpresa, ou nem tanto, não consegui mais achá-lo.
- Cadê o índio? Perguntou ao grupo que caminhava com ele?
- Quê índio? Responderam.
Continuaram a caminhar até a montanha, chegaram lá perto da hora do magnífico pôr do sol que se pode avistar do alto daquela rocha de paisagem tão deslumbrante.
Quando começou a escurecer iniciaram a descida e uma lua sertaneja cheia, de fazer inveja a Luiz Gonzaga, nascia no céu e deixava a noite mais clara que o dia. Kléber não via mais São Jorge nem o Dragão na lua, via tão somente o tapiti. Voltou a olhar a trilha quando um tapiti passou bem a sua frente. Nessa hora já lhe havia certeza de era o mesmo tapiti da Deusa Lua.
- Vocês viraram o tapiti? Perguntou ao grupo.
- Vimos nada.
- O que é um tapiti? Alguém respondeu.
- Eu vi!
- Ainda bem que alguém, viu, já estava achando que era maluco.
Só quando Kléber se viriu que percebeu que era o velho índio. Já não lhe havia mais surpresa alguma.
- Aposto que você não acreditou quando eu contei minha história? Disse o índio.
- Tenho maior respeito pelas suas histórias. Mas sou um homem da ciência, disse Kléber. Por outro lado, também, hoje em dia já não duvido de mais nada.
- Como disse Shakespeare, há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. Murmurou o índio.
Exato, só acho que o “rachar de rir” foi galhofa sua, disse já com uma certa intimidade. Vocês nem conheciam a língua a portuguesa na época.
- Mas talvez nós já visitássemos a Europa antes deles virem para cá. Ou talvez o tapiti contasse algumas coisas que via e escutava quando passava por lá. Outro dia mesmo encontrei um músico, Raul, e contei umas histórias para ele. No começo ele não quis acreditar, mas depois resolveu escutar o que eu disse.
- Outro dia? Raul morreu há décadas.
- O tempo é muito relativo, disse o índio. E continuou:
- Meus descendentes, embora não parecessem, eram, na realidade, seres muito sábios. A humanidade hoje parece sábia, mas já se esqueceu de muita coisa.
O índio deu uma sonora gargalhada que ecoou do paredão da pedra rachada até a lua cheia, aproveitou-se de um lapso do olhar de Kléber, e sumiu.
Ele acelerou o passo, pois o tapiti que havia cruzado o caminho e a conversa com o índio havia lhe deixado um pouco para trás do grupo que caminhava.
Chegou de novo no grupo e disse:
- Índio maluco.
- Que índio?
Mais tarde ao voltar ao lugarejo onde passariam a noite, os moradores do local contaram a mesma lenda que o índio havia contado a Kléber, sem que ele tivesse dito uma palavra. Com um detalhe a mais. O tapiti da Deusa Lua foi o primeiro índio da região, o fundador da tribo, e um dia ele foi encantado num tapiti e sequestrado pela Deusa Lua.
- Desde então ele vê e sabe qualquer coisa que acontece na terra, pois está lá na lua assistindo a tudo. Quando quer se materializa em qualquer coisa. Nas noites de Lua cheia gosta de voltar a ser índio e a vagar por aí, destilando todo o seu sarcasmo. Mas ninguém aqui acredita nisso, é só lenda mesmo. Disseram os moradores.
E Kléber quieto no seu canto só pensava numa coisa: descendentes, ele disse. Meus descendentes.
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