Desconhecer
Naquele dia, há exatos 25 anos, eu não iria passar pela Brasília Amarela. Ela era mesma, sim. A Brasília dos Mamonas, ou ao menos era o que o cartaz dizia. Ficava lá à mostra para um leilão que estava para acontecer. Na últimas semanas passar por ela tinha se transformado na minha rotina pois a cada dia eu subia e descia a ladeira para visitar meu pai. Mas naquele dia ele havia morrido, minha mãe e minhas avós chegaram pouco após ás seis da manhã, acordaram a mim e a Edite e nos deram a notícia. E para homenageá-lo irei postar um conto!
Desconhecer
Darlan era um carioca da “clara e da gema” como ele mesmo gostava de se definir. Amava a cidade, suas belezas naturais e sua combinação ímpar de serras, prédios e praias. Quando mais novo fotografava de cada canto da cidade e, como trabalhava como fotógrafo, ainda tinha o prazer de revelar suas próprias fotos. Mas Darlan também era daqueles que queriam aproveitar a vida ao máximo. Bebia e, principalmente fumava muito e ainda relativamente jovem foi desengano pelos médicos.
Seu filho ao perceber a morte iminente de seu pai o convidou para uma viagem ao interior. Darlan, um adorador da cidade relutou, mas sabendo que seria o último grande momento que poderia passar junto com seu filho, aceitou.
Chegaram a ponte Rio-Niterói e então seu comentou com seu filho:
- O Rio e a Baía de Guanabara tão lindos que ás vezes eu gostaria de desconhecer q cidade só para ter a sensação de ver tudo isso pela primeira vez.
- Tem razão pai. Deve ser uma sensação incrível.
Chegaram a pequena e simpática idade que foram visitar e num certo seu filho se afastou para comprar um maço de cigarro que Darlan havia pedido. O jovem não suportava cigarro, mas já que não havia mais nada que pudesse salvá-lo, não havia mais motivo para negar tal pedido. No breve momento que esteve sozinho uma maga a arrastou para dentro de sua casa.
- O senhor está mal, eu percebo.
- Você viu nas suas cartas?
- Não, na sua cara mesmo. O senhor está pálido, péssimo. Mas eu posso salvá-lo. Contudo, tudo tem seu preço.
- Mais uma impostora querendo dinheiro! Tchau!
- Não é dinheiro. Mas preciso das suas lembranças. Se tomar essa poção ficará curado de seu mal, mas...
- Mas?
- Com o tempo irá perder suas lembranças mais antigas. Não se lembrará de quando era criança, depois adolescente, depois da sua juventude. Daqui algumas décadas sequer se lembrará do dia de hoje. Ah, e tudo o que aconteceu aqui dentro você se esquecerá na momento em que colocar o pé lá fora.
Sabendo ter pouco tempo de vida, Darlan julgou não ter nada a perder, bebeu a amarga poção, e, quando percebeu, a maga havia desaparecido.
Saiu da casa e avistou seu filho desesperado a sua procura. Ainda tinham mais alguns dias para aproveitar, nesse tempo seu filho espantou-se com sua melhora, até que no dia de voltar, pediu para ficar.
- Só mais alguns dias. Pediu.
Como havia um amigo de seu filho disposto a hospedá-lo, seu pedido foi aceito.
Os dias viraram semanas, meses depois meses. Darlan começou até a ganhar dinheiro como fotógrafo por lá. Logo a fotografia, que ele por tanto tempo havia deixado de lado. Certo dia seu filho apareceu – você precisa voltar ao Rio para fazer novos exames – falou.
- Não pode ser numa cidade aqui perto?
- Pode. Disse o filho.
Ao chegar os resultados dos exames os dois se surpreenderam: Darlan estava curado!
- Filho não quero mais voltar ao Rio.
Mas você sempre amou a cidade?
- Sim. Mas tenho a sensação que irei morrer no dia em que pisar lá novamente.
- Pai, você está bem de saúde agora e cuida do seu próprio nariz. Se quiser ficar, fica.
Os anos foram passaram, Darlan começou a esquecer de seu passado, até que, 25 anos depois, já um senhor de idade relativamente avançada, acabou por esquecer completamente de tudo o que passou e de todas as paisagens do Rio de Janeiro.
- Filho quero conhecer o Rio!
Seu filho julgava que o esquecimento da cidade em que seu pai nasceu era coisa da idade, embora normalmente as pessoas perdessem as memórias mais recentes, e não as mais antigas, porém sabia que ele ainda tinha medo de morrer ao chegar ao Rio.
- E o seu medo, pai?
- Eu continuo a ter. Mas deve ser paranoia minha. Dizem que é uma cidade tão linda. Quero conhecer.
E assim pai e filho resolveram fazer uma longa viagem para que ele, enfim, pudesse realizar um sonho que parecia impossível: conhecer pela primeira vez a cidade em que nasceu, cresceu e viveu a maior parte de sua vida.
Estavam se aproximando da ponte Rio-Niterói quando seu filho resolveu passar primeiro pela cidade vizinha. De lá avistaram toda a exuberância da Baía de Guanabara, comeram uma pizza e tomaram um café enquanto avistavam um maravilhoso pôr do sol. Em seguida pegaram a ponte já no inicio da noite e as luzes da cidade acesas em volta da Baía. Lá de cima Darlan ficou ainda mais encantado. Chegaram finalmente a cidade, e começaram a passear. Darlan se deliciava com cada paisagem que ele avistava pela primeira vez. Até que viraram na rua em que Darlan vivera seus últimos vinte anos no Rio. O Corcovado e o Cristo Redentor surgiram majestosos à sua frente, com a Lua, nova indo a crescente, à sua esquerda. Só então Darlan lembrou de tirar alguma foto. Nada de máquinas digitais ou celulares que ele havia aprendido a usar melhor que muitos jovens. Darlan pegou sua velha câmera analógica, aproveitou o carro parado, inclinou a cabeça para fora da janela e tirou a foto. Em seguida deu um suspiro.
- É muito lindo, né pai? Pai o sinal abriu, coloca a cabeça para dentro do carro de novo, vai andar!
- Pai?
- Pai!!!
Só então o filho percebera que o pai havia partido. A máquina se espatifara e se espalhara no chão, mas o filme estava preservado. O filho puxou o rosto de Darlan de volta para dentro do carro. E ao olhar o rosto já pálido de seu pai observou um enorme sorriso em seu rosto desfalecido que ele jamais poderia explicar.
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