A Pandemia e Às Travessias

No início de 2018 soube que em julho haveria mais uma edição do Caminho do Sertão. Uma Travessia a pé de cerca de 200km entre o distrito de Sagarana, em Arinos-MG e o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em Chapada Gaúcha-MG. Dois lugares que levam o nome dos dois mais famosos livros de Guimarães Rosa. Não era, nem um pouco, um profundo conhecedor das obras, mas lembrava de me espantar com a precisão e a admiração que ele escrevia sobre o Sertão. E há anos já sabia de tal região e tinha muita vontade de conhecer. Eu só não tinha a menor ideia de que existia a Travessia.
Todo ano a seleção é feita a partir de cartas enviadas pelos pretendentes a caminhantes. Inscrevi-me para a edição de 2018. Não fui selecionado. Mas teimoso que sou, fui ao encontro dos povos, em Chapada Gaúcha e me deixaram fazer o último dia de caminhada. Encantei-me. Fazê-la passou a ser um dos meus maiores desejos. Tentei de novo de 2019. Nada. Tentaria novamente em 2020...

Sou geógrafo e há muito tempo me encantei por grandes trilhas e caminhadas em áreas “naturais” e/ou rurais. Quando mais jovem ia aos Parques de Ibitipoca, Serra do Cipó, sempre andando dezenas de quilômetros por dia. Fora o tanto que também caminhávamos nos trabalhos de campo da graduação.
Fiz curso de guia de turismo pensando e trabalhar com o que até hoje é o meu sonho: trilhas e caminhadas como um instrumento de educação ambiental. Levar pessoas de todas as idades da cidade para o campo e vice-versa para que se conheçam realidades e problemas tão distintos daqueles vistos no seu dia-a-dia.

Mas com o tempo não só esse sonho foi sendo deixado de lado, como as grande caminhadas foram rareando até sumir. Acho que somos burros, ou ao menos a maioria de nós é. Nos acomodamos e nos esquecemos de fazer algumas das coisas que mais nos dão prazer.

Bem, voltando a minha vontade de fazer a Travessia. No início de 2020 também havia me inscrito para o Caminhos dos Umbuzeiros, entre as cidades baianas de Canudos e Uauá. Fiquei já lista de espera. “Tudo bem, em julho tem Sertões de novo. Vamos ver se dessa vez serei chamado”. Pensei. Mas nem Umbuzeiros nem Sertões de 2020 teve. Em março daquele ano chegou a pandemia. Também não houve as Travessias em 2021, nem Umbuzeiros em 2022.

Acredito que se, de antemão, soubéssemos do que veríamos, enlouqueceríamos. O que aliviou é que as notícias vieram aos poucos, como na piada da “sua vó caiu do telhado”. De repente, jo meio de março de 2020 fechou tudo. Vivi no limiar da hipocondria. E fui um daqueles que seguiu a risca todas as recomendações quanto a me proteger do coronavirus: quase não saía de casa, e, quando saía, sempre de máscara. Levei meses para sair pela primeira vez a pé. “será que passarei mal ao botar o pé na rua?” Cheguei a pensar.

E Cada novo passo dado rumo a “normalidade” era uma nova emoção: a primeira saída da cidade, a primeira viagem, os passeios de carro pela cidade e as caminhadas pela floresta da Tijuca. Final de 2020 fomos fazer uma trilha. Pedra do telegrafo aqui na cidade. Mesmo com chuva, era tanta gente na trilha, que parecia que todos os moradores estavam lá. Chegou 2021 e vieram as novas ondas, piores que a primeira, 4 mil mortos a cada dia.
Voltou-se a amansar de novo lá pelo fim de 2021, com boa parte da população já vacinada. Dava uma caminhada aqui e acolá pelas ruas de cidades próximas, ainda muito vazias. Numa dessas, em meio a um silêncio, escutei uma voz:

“A gente já nasce na contagem regressiva”

Não tenho a menor ideia de quem falou. Veio de dentro de uma das casas da vizinhança, não entendi nenhuma da frases anteriores e posteriores. Apenas essa, dado num tom pausado e bem mais alto. Nessa contagem regressiva, a pandemia nos atrapalhou num dois anos.

E perto do fim de 2021 fui a 2 eventos em dias consecutivos em municípios relativamente próximos. Uma oficina de agrofloresta e um trabalho de campo de campo do mestrado numa unidade de conservação. Ambos os lugares lindos. Lembro muito bem da minha alegria e satisfação ao voltar essas atividades que me fazem tão bem.

Em 2022 o mundo começava a voltar ao “normal”. Mas, com tanta loucura, até me esquecera das tão desejadas Travessias. Mas um certo dia, surpresa! Nas redes sociais era anunciada o Caminho do Sertão de 2022. Tentei de novo. Dessa vez num 17/5, meu aniversário de 45 anos, fui chamado!

Num sábado cheguei a Sagarana e num domingo de julho começamos a caminhar. Depois duas tentativas frustradas mais dois anos de pandemia, estava lá exatamente no tempo e lugar que eu desejava há mais de quatro anos. Pensava: quando terminar o primeiro dia de caminhada, aí sim, vou me sentir exatamente dentro da Travessia. Aqui é só o início. Ledo engano. Tal sensação veio alguma horas antes. Quando, ao atravessar o quintal de uma casa, bem no meio das andanças daquele dia,  fomos surpreendidos com um delicioso banquete sertanejo. Doces, biscoitos, pães, sucos e café! E cantos, poesia, músicas. Eu, que não sou disso, caí em prantos. A emoção aliada ao cansaço de já uns 15, 20km percorridos. Quase me fez apagar. Precisei segurar o choro, não por vergonha, ou qualquer outro motivo banal. E sim, pra poder concluir os mais de 32km daquele dia!

E num dos momentos perto do fim da Travessia cheguei a pensar: será que depois dela, outras viagens não terão mais a mesma graça? Mas então lembrei-me da pandemia. E do prazer que era cada vez que, de uma forma ou de outra, consegui ir ao meio do mato. Então pensei: nananinanão! Depois da Pandemia hei de aproveitar cada grande ou pequeno momento que estarei fazendo o que mais gosto. Mas não irei, aqui, alongar-me nas histórias desses 7 dias de caminhadas. Direi apenas do que mais vale a pena ao longo desses dias: as amizades feitas e os bons bate-papos; tudo o que aprendemos, incluindo as aulas informais de educação socioambiental; o caminho, o caminhar e as lindas paisagens vistas na imensidão do Cerrado.

Voltei ao Rio com vontade de novas aventuras como essa. Mas eis que menos de 2 meses de iniciada a Travessia, eu havia concluído o Mestrado e entrado num novo trabalho, tais fatos, embora bastante desejados, atrapalhou os planos de novas caminhadas. No início de 2023 foi anunciou-se que o Caminhos dos Umbuzeiros adiado de 2020 iria acontecer. Perguntei se haveria possibilidade de chamarem gente da lista de espera. Cheguei a achar que poderia ir, mas não foi possível. Mas então pude, em julho de 2023, ir a Veredas da Resistência, Travessia que faria o trajeto, mais ou menos, oposto aos Umbuzeiros. De Canudos-BA a Uauá-BA.

Se o mote do Caminho do Sertão era Guimarães Rosa, o da Vereda das Resistências era a Guerra de Canudos. Se a primeira tinha um tom relativamente leve ao longo dos 7 dias, a segunda, ao longo dos seus 3 dias, mas a tarde e noite anterior, relembra sempre o massacre e a carnificina ocorridos, além de se atentara, também, aos principais problemas socioambientas que ocorrem na região e no Brasil. Tanto que uma das garotas que fez as duas caminhadas, cantora e poeta,, que nos Sertões costumava puxar canções belas, leves e sutis. Logo de cara, na Veredas, trouxe uma que falava da destruição da Amazônia. Estávamos na Caatinga. Mas os ensinamentos daquela canção servem para todos os biomas brasileiros. Eu particularmente até preferi mais a pegada da indignação que a Veredas nos traz. Acho que vim ao mundo para me indignar com os absurdos que nós vemos por aí.

E por quê falar da pandemia e dessas Travessias? Para nos lembramos do tempo que tivemos que abrir mão de vários de nossos prazeres e nos lembrar de fazer o que nos faz feliz. Em cada uma das Travessias teve um momento que, em a tanto cansaço e muitas dores eu disse a mim mesmo: eu sou é louco, vou parar com isso agora! Mas loucamente segui. E, enquanto puder, seguirei! Caminhada ou Travessia? Se tiver eu vou!

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