O Relógio
- Seu Francis, o relógio novo quebrou. Disse Maria, que há décadas trabalhava para a família. Viu os filhos e agora vê os netos de Francesco, brasileiro, neto de italianos, crescerem. Era manhã de 31 de dezembro de dois mil e bolinha, ano marcado pela pior pandemia em mais de um século. Milhões morreram e continuavam a morrer pela terrível pandemia. Embora não mais que uma data inventada pelo ser humano, a virada de ano, poderia representar a virada do ser humano contra essa doença tão sacana.
Francesco estava então na Serra Capixaba, com esposa, parte da família, netos, e poucos amigos. Havia a preocupação em juntar tanta gente em meio a pandemia. Porém não dava para se tornar refém do vírus. Depois de mais de nove meses alguma flexibilidade na quarentena haveria de haver, caso contrário, a todos e aos poucos, um vírus muito pior, o da loucura, tomaria conta. Ainda assim, todos os cuidados eram tomados pela família de Francesco.
Sabendo o tanto de falta que o relógio fazia a Maria, Francesco resolveu sair da casa no alto da serra e descer a cidade, para trocar o relógio, comprado no dia anterior, por um novo. O relógio além de parado, estava com o ponteiro dos segundos caído.
Ao chegar na loja, o atendente se recusou a trocar o relógio, alegando que o próprio Francesco havia quebrado o relógio e que estava inventando uma desculpa para trocá-lo. De moral ilibada, pois nem troco errado para cima ele aceitava, Francesco se irritou. Seu lado italiano aflorou, e ele gritava e gesticulava com o atendente, que ainda o acusou de tratá-lo de forma rude apenas por ser um simples funcionário de loja, o que enfureceu ainda mais aquela alma ítalo-brasileira. Culminou jogando relógio no chão e sendo retirado da loja por seguranças, quase foi preso. Após a queda no chão, surpresa: o relógio voltara a funcionar. Ao chegar à casa, foi posto novamente no teto da cozinha, agora, funcionando perfeitamente...
O Botijão
- Seu Francis, o Relógio parou de novo. E o gás acabou. Disse Maria. Passava das 21:00. Francesco desistiu do relógio. Pegou e o deixou ao lado de onde ficava o bujão de gás. Havia o botijão reserva e trocá-lo era uma tarefa que Francesco fazia há de mais 15 anos. Mas durante o movimento de troca, surpresa! A válvula que liga o bujão a mangueira quebrou. Eram 21:30 quando Francesco e os amigos da família desceram até a cidade em busca de uma válvula. Acharam o contato de quem trabalhava com gás, numa rua escura, talvez o lugar mais perigoso que havia pelas redondezas, próximo ao local onde drogas ilícitas eram vendidas e consumidas sem qualquer problema. O vendedor tinha botijão, mas não a peça que tanto era necessária. Cerca de 22:00 quando eles se deram conta que não haveria jeito. O gás era imprescindível para os pratos que estavam planejando. Sem ele, a ceia seria champanhe e pão com salaminho.
Francesco estava convicto que o relógio, a briga na loja, e gás quebrado, atrapalhando a sua ceia de ano novo foram as últimas peças que dois mil e bolinha pregara nele. Ano ruim para o mundo e para ele. O medo contínuo do vírus, encontrar poucas vezes os amigos, deixar de fazer as viagens planejadas, perdas de alguns companheiros de longa data, tudo isso aliado a problemas com alguns familiares e algumas dores tornaram dois mil e bolinha um ano muito difícil, mas, ao menos, faltavam parcos minutos para acabar.
Feliz Ano Novo
Após a ceia regada de salaminhos, a poucos segundos do fim de dois mil e bolinha veio um brinde na mesa. Surpreendentemente, no exato momento em que os copos se tocaram, houve-se um trovão. Após o trovão, contrariando todas as leis da física, todos viram um relâmpago descendo até o para raio da casa e de lá, para onde havia o botijão não encaixado e o relógio que já havia funcionado e parado por duas vezes. Nada explodiu. Todos correram naquela direção e viram o relógio correr na direção contrária por alguns segundos e depois voltar a andar para frente. Via-se, ao longe, os fogos da cidade. Feliz Ano Novo!
Depois de algum tempo o telefone começou a tocar. Parentes e amigos ligavam, mas a cada ligação era: feliz dois mil e bolinha! Tenho certeza que dois mil e bolinha será o ano. Todos na casa começaram a ficar desconfiados. Uns foram ver notícias na internet. Um novo vírus potencialmente letal acabara de ser descoberto do outro lado do mundo, mas dificilmente causaria problemas pelas nossas bandas. – Será que ficamos presos em dois mil e bolinha? Disse Francesco, logo um ano que tanto ele esperou que passasse. Vencidos pelo cansaço, foram todos dormir.
Primeiro de Janeiro
Na manhã seguinte todos desceram para a cidade. Não se conversou sobre as dúvidas criadas após o estranho raio da meia noite. Talvez todos achassem que havia sonhado. Mas ao chegar à cidade, a surpresa. Ninguém usava máscara e todas as decorações remetiam a dois mil e bolinha. Comprou-se a peça do gás e um relógio novo. Ninguém falava nada nos carros. Voltaram a casa no alto da serra. Após o almoço, Francesco se afastou um pouco e começou a pensar: não há mais dúvida, estamos de novo em dois mil e bolinha. Logo dois mil e bolinha... O mesmo vírus chegará, os mesmos amigos partirão, os mesmos medos e dores sentirei. Será que entramos num looping e estaremos sempre em dois mil e bolinha? Será que daqui a 365 ou 6 dias iremos finalmente para dois mil bolinha e um? Se ficarmos em dois mil e bolinha envelheceremos até morrer, ou viveremos a eternidade logo num ano tão sombrio? No fim das contas, Francesco percebeu que as dúvidas não eram tão diferentes daquelas que já havia tido nos outros anos em que ele viveu. Então relaxou. – Maria, vai sair um café?
O café salva! Que conto! Parabéns!
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