O Humano

Em certo dia, a hora, a hora

Do meio dia que apavora

Eu, caindo de sono cansado da revoada

Pensando na saudosa Lenora, corva amada

Morta outrora atropelada

Naquilo que chamam de estrada

Ia pensando quando ouvi na floresta

Um barulho pequenininho

E disse palavras tais:

- É mais um bicho, de mansinho

- Há de ser isso e nada mais


Ah, bem me lembro, bem me lembro

Num agradável dezembro

Revoávamos como dois corvos amados

Quando vimos na nossa densa floresta

Uma linha pontilhada

Chamam-na de estrada

Tomar cuidado era o que nos resta


Mas minha corva amada um dia descuidou

Lá pousou

Um bicho esquisito, gigante

Muito rápido, num instante

A atropelou

Agora, a todo instante

De descanso, ócio redundante

Lembro de seu fim agonizante


Volto o barulho, a escutar

Mais um bicho a me espreitar?”

Há de ser isso e nada mais”


Mas o barulho não mais baixo era

Estridente, diferente

Quem chega a horas tais?

Mais um bicho de repente?

Há de ser isso e nada mais


Minha alma então sentiu-se forte;

Não mais vacilo e desta sorte falo

- Imploro de vós, ou corvo ou corva,

Desculpe-me tanta demora

Mas como eu, precisado de descanso,

Já cochilava, e tão de manso e manso

Não fui, logo, prestemente


Aproximo, e de repente,

Vejo tumultuosamente

Um nada nobre bicho entrar

Não visto antes em terra, no mar ou no ar


Estranho, desengonçado

Nem peludo, nem pelado

Angustiado, insatisfeito

Porém se acha perfeito

Nada nobre sujeito

- Quem aqui está, tão diferente?

Quem é você, bicho que aqui não há?”

- Sou o humano, aqui me faço presente”


- Quem és tu e o que queres?

Posso ajudar, de repente”

- Vim lhe devolver essa carcaça

Dessa corva atropelada

Estava à beira da estrada

Atrapalhando nosso progresso

Nossa fronteira a conquistar

Aqui será nosso novo lar


- Seu lar? Aqui sempre vivi, nasci, cresci, me diverti.

Se daqui me expulsar, onde irei morar?”

- Não me interessa, mas aqui iremos tomar

Não tens escolha, há de se afastar

Procure outro lugar para viver

Ou há de morrer

Está na hora de você sair

Essa terra vamos dividir

A floresta, abaixo, vamos por

Usá-la a nosso dispor

O mundo todo será nosso

Não teremos remorso”


- Mas então o mundo todo será de vocês?

O que será de nós bichos

Você é tão bicho quanto a gente

Por que se acha diferente?

Acham que pode surgir

E num átimo, de repente

Tudo em volta destruir?


- E, nós, outros bichos

Não humanos

De vários nichos

Brigamos e nos amamos,

Em todos ecossistemas

Por todo Globo

Corvos, onças e emas

Quando voltaremos a viver

Sem impactos dos humanos e seus problemas?


E o humano disse:

- Nunca mais

 






   


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