O Corvo em Quarentena

À meia noite em quarentena

Com o vírus matando lá fora

Milhares numa noite serena

Ele teima não vai embora


Quando poderei sair de novo?

Perguntava, por vezes chorava

Sair sem máscara, sem medo,

Abraçar, aglomerar

Será que nunca mais?


Procuro fotos para ver

Cansei-me de vê-las no celular

Também não posso sair

Já vi todas do computador

Onde mais?


Procurei as fotos reveladas

Num canto do velho armário

Largadas

Ao lado de um contra cheque de um velho salário


E de um livro empoeirado

Abri-lo num poema mofado

Amado, odiado

Antigo, um perigo

Lá de Baltimore

No fim, nevermore


Lê-lo eu começo

Imagino o corvo

E peço

Não quero ele, que estorvo


Na leitura, absorto

Um barulho ouço

No quarto ao lado, que louco

Não era possível, o Corvo


Podia ser um Tucano

Um carcará

Um gavião

Que a dias estava a rondar

Mas logo um Corvo que aqui não há?

Saiu do livro e veio para cá


Não é possível, é minha imaginação

Sou sugestionável

É uma, nada doce, ilusão


Mas o corvo parecia sábio

Imponente e resistente

Queria conversar


Disse que era velho

Muitos séculos de idade

Mas era forte, sábio

Disse com propriedade


Primeiro resisti, mas não aguentei

Que mal há?

Precisava perguntar:

Esse vírus

Mata nossos queridos

Deixa corações partidos

Enferma tantos outros

Leigos e doutos

Nos deixa presos sem pena

Nessa louca quarentena

Se alguém sair dessa sem pirar

Certamente, o mais louco será

Louco vivemos

Tristes

Na solidão

Amedrontados

Desesperados

Pirados

Então ao louco sábio

Ou melhor, ao corvo sábio perguntei:

Oh, Corvo quando poderemos sair sem medo

Sem máscara e sem receio

Desse vírus que tanto jaz?

E o Corvo disse:

Nunca mais.


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