É Impreciso Ter Coragem
É Impreciso Ter Coragem
Andar de trinta quilômetros num dia ja não é coisa para um covarde. Fazer isso por sete dias seguidos certamente é preciso ter coragem. Com o sol quente do Setão na cabeça, subidas, e até no chão dd areia, aí talvez até um pouco de loucura
Naquele dia eram quase quarenta quilômetros de caminhada. Nunca se dizia qual era a distância correta. Pela areia, subindo a serra, descendo a serra e na areia de novo. Naquele ponto a paisagem lembrava ao mesmo tempo Marte, pelo Barro Vermelho e a Lua pois os paredões vistos de dentro dos meandros do Rio que davam a impressão de estarem numa cratera. Apenas os buritis e a vegetação nos cantos dos meandros os faziam lembrar que ainda estavam, talvez, na Terra. Tiravam algumas fotos, mas, por melhor que ficassem, não conseguia captar um décimo da alma daquele lugar.
Anoiteceu e o grupo ainda caminhava pela trilha que seguia razoavelmente numa linha reta que cortava seguidamente os meandros do Rio. Não havia uma luz de qualquer pequena cidade por perto e, se durante o dia a paisagem já era bela, à noite, sob a luz da via láctea, era muito mais.
Mas ao mesmo tempo em admiravam aquela maravilha, todos estavam bastante cansados, exaustos.
Era gente muito corajosa, mas todos também muito cansados. E uma das garotas mais corajosas era também uma das mais cansadas. Atravessou meio país a pé para chegar até chegar lá, parecia não ter medo de onças, cobras, nem do calor que tanto fazia ao longo do dia, nem de sede, nem do frio que já era intenso naquele momento. Mas estava exausta.
- Ai, ai, ai. Está tudo doendo e não aguento mais dar mais um passo. Dizia enquanto caminhava arrastando uma das pernas.
Nessa hora as estrelas aparentemente deram uma enfraquecida, mas ainda continuavam belas, espalhadas pela abóbada celeste. É que a Lua Sertaneja surgira. Depois da noite superar a beleza do dia, qualquer coisa a mais pareceria impossível, mas nada era impossível naquele lugar. O prateado da lua simplesmente refletia nas bordas daquelas crateras e cintilava no teto dos buritis.
- Quando a lua sai costuma dar muito sapo aqui, disse um dos caminhantes.
- Sapo? Disse a mais corajosa e cansada das caminhantes. Eu morro de medo de sapo!
- Croc! Ouviu-se um coaxar reverberando pelos paredões.
E nessa hora todo o cansaço de cerca de quilômetros de caminhada acumulados por dias da caminhante foi-se embora. Ela engatou uma quinta marcha, passou pelo guia que estava mais a frente e ultrapassou até mesmo o carro de apoio ainda mais à frente, que já estava andando devagar. O grupo viu apenas a poeira, como a do Pernalonga, sendo levantada por seu passos largos ao sumir no horizonte. Correu por cerca de uma légua e só parou ao chegar ao local onde o grupo passaria a noite.
- não devia ter falado do sapo, acho que eu a assustei disse o caminhante.
- Acho que também a assustei, disse outro surpreendendo o grupo que sequer havia notado a sua presença. Ele caminhava apenas poucos passos atrás, mas naquela escuridão, ninguém havia percebido que ele estava se aproximando.
- Mas o que foi você fez? Perguntaram.
Coaxei!
Muito bom!
ResponderExcluir