A Re-Evolução dos Bichos
Num átimo avistou-se o pulo que o leão deu na zebra, bote certeiro. Mas não se tratava de um ataque e sim de um gesto de confraternização. Abraçavam-se como grandes amigos que há tempos não se viam. A leoa dançava can-can de braços entrelaçados com quatro hienas. A cascavel e o rato papeavam alegremente enquanto o novilho beijava alegremente uma sucuri.
Não havia rancores, nem nenhuma competição. Ninguém estava preocupado se era dia da caça ou do caçador. Muito menos queriam saber quem estava mais ou menos adaptado àquela região.
Mais e mais animais chegavam à festa. Convescote este que se repetia em todos os biomas e continentes do globo. Até na Antártica. Da savana africana o leão havia transmitido a ordem a todo o planeta: sete dias de confraternização e trégua entre todos os bichos que existem. O motivo? Como já havia advertido Camus, o ser humano mal havia se livrado de uma pandemia e comemorava a cura enquanto algo muito pior estava por surgir. Veio a nova peste que o eliminou de forma definitiva do planeta.
Durante a festa o jacu comentou:
- O homem se dizia o mais inteligente e humano dos animais, mas, se conseguia constantemente maltratar e matar os seus próprios semelhantes por pura maldade, ganância ou negligência, imagina o que ele acabava por fazer com outros animais? Algum dia a conta chegaria.
E a festa seguia. Cada vez mais e mais animada. Um bicho mais feliz que o outro. Mas de todos o mais alegre era, sem sombra de dúvida o sisudo corvo. Há anos não dava um sorriso, desde a morte da sua saudosa corva Lenora, outrora morta atropelada, jazendo buarquemente na contramão da estrada, atrapalhando o trânsito. Mas naquele dia revoava, como um louco, de um lado para o outro, e gargalhava alegremente, e, com muito gosto, repetia, num grito que saia lá de dentro de sua nobre alma: “NEVERMORE, NEVERMORE”.
Conto maravilhoso, surrealista, com a oportuna lembrança da advertência de Albert Camus (livro "A Peste") sobre o risco sempre pendente sobre uma humanidade inconsequente. Vale ainda apontar outra citação, a do genial, e sinistro poema de Edgard Allan Poe, "O Corvo". Parabéns, amigo, você foi rápido no gatilho, colocou brilhantemente no papel a ideia que fermentava em minha mente e sobre a qual conversamos em uma tarde muito agradável.
ResponderExcluirQue dupla vocês dois, esses papos rendem! Parabéns!
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